quarta-feira, 13 de outubro de 2021


 

A janela fechada. O mundo lá fora teria de esperar por ela para que não girasse sem o seu consentimento. Haveria tempo para o nascer das estrelas assim pensava por cada noite acordada. Quanto tempo passara sem se aperceber das alterações físicas que o tempo tinha ensaiado no corpo frágil e doente? Só agora se apercebia num raciocínio claro que estivera demasiado tempo enroscada no seu próprio corpo. A aliança soltara-se pela magreza da mão que teimava em a guardar, o anel dourado que recebera naquele dia especial. Tudo tão confuso naquele espaço habitado pela escuridão da alma; Entregara-se demasiado tempo à falta de tudo. Pensava no sorriso, no abraço, no beijo soprado em jeito de ternura. Sentimentos confusos começavam a ameaçar sua solidão propositada. O cheiro do perfume ao seu lado...num queixume verbalizou em voz vazia, sinto-te longe, fazes-me falta...
Aproximou-se da janela fechada, entreabriu-a à claridade, devagar, os vidros escancaram-se à luz ténue do amanhecer. Foi o princípio da liberdade. Gostava do sol, gostava do mar, aos poucos deu-se conta que começara a ser borboleta.



Célia M Cavaco, In DESVIOS






Foto: Céliamcavaco