terça-feira, 5 de abril de 2016







A cama revolta pela noite mal dormida.Os sonhos,o frio,incomodavam-na há noites seguidas.
Pela primeira vez,desde há muito,chamou pela mãe,queria colo,queria afagos nos cabelos, queria mimos,daqueles que
acalmam as crianças quando acordam de um pesadelo.
Voltou a chamar pela mãe,esquecendo que a mãe estava ausente; A mãe de certeza que estava na cozinha a preparar a galinha de cabidela que fazia para o almoço de Páscoa.Levantou-se da cama,procurou a mãe,mas a casa estava vazia,assustou-se,queria a mãe para voltar a adormecer.Voltou a chamá-la,sem resposta, sentou-se no chão onde ficou sem se aperceber do tempo que ali permanecera.
Ultimamente sentia-se orfã,sentimento contraditório, pois nunca se tinha sentido filha.Aninhada nos seus próprios braços, pareceu-lhe ouvir a mãe a contar a estória das três laranjinhas,era sempre a mesma estória triste,triste como tantas outras que lia nos livros escolares. Recordou ainda os vestidos floridos,os saiotes engomados,os sapatos pretos de verniz,as meias de linha feitas com cinco agulhas, os cabelos pretos, penteados em cachos com o laço branco; com o olhar procurou a única foto que permitia decorar a sua memória. Queria regressar ao colo da mãe.Queria!... Sentir o cordão umbilical.










Célia M Cavaco / Desvios