Abrir um blog de poesia, nada de especial. Mas um blog onde se pode escrever palavras, momentos a partilhar, é um atrevimento, que poderá ser uma ousadia. A minha, onde por instantes viro uma suposta página do meu livro.
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Lembras-te? A rua era avenida larga e comprida.Tinha gentes de todas as raças,os cheiros confundiam-se. Uns lembravam a índia,canela,açafrão e caril. Sarís coloridos enrolados nos corpos femininos com uma fala diferente .Outros eram capim seco e café.Outros eram suor e perfume, nas roupas coladas ao corpo. Bebidas frescas em esplanadas,onde as conversas prolongavam a preguiça da suposta sesta na força do calor. Esperava-se a noite,a escuridão atenuada por candeeiros dispersos junto às casas grandes rodeadas de jardins grandes e pequenos.
Lembras-te ? o cantar das cigarras,o crepitar de uma pequena labareda provocada pelo sol que incidia sobre a ponta de um cigarro.A paisagem perfeita,repetida vezes sem conta como cartaz de um filme. O amanhecer movimentado,com o sol já a queimar a pele. A agitação das falas com os tons de pele como cenário.
Lembras-te? Começarmos a viver sem medo,tudo frutificava como uma benção. O respeito pela terra, gentes diferentes numa comunhão sem receios. Ouve noites de tambores.De repente foi como se ninguém se conhecesse...
Tão rápido,que nos perdemos uns dos outros. Os olhares começaram a ter medos.
Lembras-te? Perde-mo-nos num regresso prometido à avenida das acácias...
Célia M Cavaco / Desvios
Imagem : Google
