Se morresse amanhã, meus olhos certamente estariam encerrados porque a minha alma haveria de se encarregar dessa missão. Só ela me deixará composta perante todos os sóis e luas que virão se despedir de mim. A alma, ou o espírito, que deixem o meu corpo no primeiro barco que assome à madrugada já que de noite deixarei o meu perfume nesse corpo que foi meu, nada restará de mim senão um papel escrito pela minha mão tremula na despedida quando ainda o sol entrava pela janela para iluminar a minha alma leve pela despedida. Encontrarei pelo caminho novo outras vidas, outras cores, outras de mim esperando o meu retorno, talvez com a mesma alma noutro corpo. Sem testamento feito, deixo nada porque nada tinha, apenas deixo a saudade de quem de mim gostou. O meu colar de pérolas que sempre me acompanhou há-de esperar pelo meu regresso, os livros hão-de estar guardados algures até que os possa reencontrar. Tudo é nada, tudo é certamente certezas se acreditar que a morte é só um virar de página. No primeiro dia de Outono serei uma das primeiras folhas a cair da árvore que sobreviverá até que o encontro seja possível. De mim, saberão que o primeiro pingo de chuva será certamente a única lágrima que chorei sem que tenha havido despedida desse amor que foi a única flor que deixei plantada no coração feito de saudade.
"A morte, é só a curva da estrada ( Fernando Pessoa)"
Célia M Cavaco, In DESVIOS
Arte (? )
