Poderá ser amante, conselheira, confusa, a chegada da noite, trará com ela a sombra, sombras difusas, desassossego, tudo na noite que se quer escura, com ou sem estrelas, lua de prata ,cheia ,nova, como só a noite é num quarto de paredes brancas com janela virada para o sol nascente. No fundo do quarto apenas uma cama, perto a sombra que é ele mesmo o corpo debruçado sobre si com receio das marionetas que se espelham nas paredes brancas e nuas.
Nada mais que o corpo, o lençol amarrotado, o rosto ao contrario do corpo como se vivesse de costas para a porta, no lado de fora um riso e um segredo. No chão, a única luz que está no lado de fora do corredor que separa o quarto da das ambulantes sombras misturadas com as nuances que a noite oferece.
Como se fosse noite de nevoeiro, os barcos nas águas do rio dão aviso pré tempestade, talvez chova, pensou (...),nem pensar alto se atreve, a noite pode fazer-se ouvir, as palavras podem escrever-se com as sombras. A noite torna-se longa, o corpo descai sobre si, o lençol atreve-se a cobrir-lhe o corpo do frio. As horas cantam no relógio que faz tic--tac com cadência até o acordar da madrugada que se avizinha. A primeira claridade ainda escura traz o barulho matutino, alguns cantos de pássaros passam a bater as asas como que a convidar a acordar. A noite a despedir-se das sombras ,o corpo na tentativa de erguer-se, cai sobre si como um pano numa peça de teatro. A noite sabe de si e do corpo que se entrega como se tivesse travado uma batalha, o que resta da noite é o lençol que ao primeiro raio de sol envergonhado começa a mostrar nudez que a noite escondeu.
Célia M Cavaco In DESVIOS
