quarta-feira, 9 de maio de 2018




Era uma vez uma menina muito tímida e por conta disso não tinha com quem brincar.Em redor da casa onde morava, era tudo muito, muito, velho.Assim pensava a menina, que com o seu olhar tentava ver da janela do seu quarto o que o mundo lhe podia oferecer.A casa era muito grande,mas só duas janelas serviam para ela espreitar o mundo de pessoas que por ali passavam.Quase sempre andava com a cabeça na lua de tanto sonhar alto.A mãe um dia apanhou-a a olhar para o ninho de cegonhas que moravam quase por cima da sua cabeça tal era a visibilidade e o alcance que os seus olhos sempre atentos queriam chegar perto da cegonha mãe para lhe perguntar como conseguia viajar e voltar a casa sem nunca se perder? Deixava os filhotes no ninho e batendo o bico voava em asas de avião.A mãe da menina não a entendia,achava-a desatenta para a sua idade, e, quase sempre a desviava do mundo dos sonhos para a realidade:
Tens de fazer a tua cama,tens de limpar o pó,tens de ir comprar dois papo-secos, um pra ti, outro para o teu irmão.A menina resmungava,de si para si sentia que ali lhe faltava o ar,por isso pensou:
Quando crescer e for muito grande não vou querer ser Mãe.Não quer ser mãe como a sua que lhe fazia lembrar o Sr.Policia sinaleiro que com os braços mandava em tudo e em todos, com gestos e um apito, gritava como a sua mãe dando ordens para tudo.Não faças isto,não faças aquilo,descruza os braços,senta-te direita,penteia o cabelo,come a sopa,come... come e cala-te...Ufff um vendaval sem temporal,pois ao deitar tudo era silêncio.Quando deitada na sua cama pensava o que iria fazer quando crescesse.A sua mãe tinha um dia gritado alto,que pensas tu da vida? Que vais ter criados para te fazerem tudo? desce à terra,somos pobres não podes ser criadora de sonhos...Era isso,nunca iria contar nem falar alto que queria ser criadora de sonhos.Queria voar,queria poder ir a um lugar muito muito longe, onde as pessoas eram estranhas mas felizes.O nome do lugar onde queria poder viajar e se possível ficar, tinha um nome estranho,chamava-se Tibete.No seu saber de coisa nenhuma, achava aquele lugar longínquo um mundo melhor,podia-se sonhar e estar horas sem falar apesar de se ouvir o silêncio,e ela que gostava até de ouvir as moscas achava para si o lugar ideal.Ainda mal tinha adormecido,ouviu sua mãe a chamar para que se levantasse pois estava atrasada,não sabia para quê,mas todos os dias estava atrasada quando nem sequer tinha conseguido acabar o sonho.Tantas vezes a mãe a chamava que pensou escolher outro nome.O tempo passou,a menina fez-se grande,cresceu e...pasmem-se,escolheu ser Mãe.Era uma mãe como tantas outras,a cartilha servia como curso intensivo.Muitas vezes pára para pensar,tu não vais fazer o mesmo que a senhora tua mãe,lembra-te que não gostavas que comandassem os teus sonho.Tinha de estar em alerta constante para não repetir o A É I O U de como ser Mãe.
O filho estava a fazer orelhas moucas ao seu chamado. Ó tu te levantas,ou eu...ou eu...parou,pensou naquele pequenote que fingia dormir para não ter de ir para a escola,tinha um pouco da sua rebeldia.
Mãe...tenho saudades de te ouvir chamar por mim.




Célia M Cavaco,In Desvios


Arte:Paolo Domeniconi