Abrir um blog de poesia, nada de especial. Mas um blog onde se pode escrever palavras, momentos a partilhar, é um atrevimento, que poderá ser uma ousadia. A minha, onde por instantes viro uma suposta página do meu livro.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
Um dia como tantos outros num outono de pré inverno.Logo pela manhã apesar do dia nublado, a visualização do rio Tejo. Vejo o que gosto apesar do dia cinzento; A imponência da ponte é suavizada pela distância que separa o rio da janela que permite pintar sonhos; Cedo,bem cedo,ainda o sol não raiava o céu, já o carro deslizava rumo ao sul,a excitação amenizava-se pelo café quente dentro do termo para aquecer o corpo,acordar sentidos e esticar gestos.Breve iria entrar nas recordações do tempo em que fora criança; A casa quase à entrada da cidade,subir dois lances de escadas e no cimo a mãe para os abraços.A euforia,o cansaço da noite mal dormida .Depois da troca de afectos,a curiosidade em rever o que já não lhe pertence.Outras gentes nas casas velhas agora restauradas,os velhos já não moram na sua infância,iniciaram a outra a viagem,apenas resta as casas para serem lembrados. Aos poucos estava a deixar de fazer sentido procurar nos passos a morada de cada um deles, à sua maneira tinham dado abrigo para afectos repartidos na meninice e isso perduaria na sua memória . A outra margem aos poucos ganha distância como se fosse a terra do nunca.Um nublado esquecimento relembra datas precisas enquanto a mente permite viajar no tempo.Hoje na margem direita, vive um dia e outro até que seja a outra margem de alguém que possa também olhar memórias separadas por um rio.
Célia M Cavaco / Desvios
Photo: Edouard Boubat Collioure
