Abrir um blog de poesia, nada de especial. Mas um blog onde se pode escrever palavras, momentos a partilhar, é um atrevimento, que poderá ser uma ousadia. A minha, onde por instantes viro uma suposta página do meu livro.
terça-feira, 1 de novembro de 2016
A extensão de areia era tão longa como o cansaço nos pés doridos que afundavam a cada passo. Sabia que tinha de encontrar um poço,depois descansaria até conseguir caminhar ao centro onde haveria as primeiras palmeiras. Pelo menos era assim que se lembrava após a contagem decrescente para o que tinha sido o seu primeiro contacto com a regressão. Visualizara tão nitidamente o seu rosto de menina vestida de roupas exóticas e coloridas.Sabia cada passo a dar até encontrar o portão de ferro.Dentro, o pátio com tapetes e almofadas decoravam o espaço onde ela caíra de cansaço e adormecera exausta. Fora acordada pelo cheiro inebriante de pétalas de rosas.Viu-se nua e perfumada atrás de um biombo.As pulseiras tilintavam nos gestos. Os olhos em pânico suplicavam um pedido de ajuda. As outras e eram muitas, cantavam cânticos suaves como se fosse uma dávida estar ali. Deu por si a fugir sem rumo pelos meandros do labirinto. Prenderam-na num quarto escuro,só via a luz quando lhe traziam um chá e fruta.Ainda a voz distante contava até dez já sabia o mal do seu medo. O escuro,tinha medo de não ver,apesar de saber olhar para o infinito das coisas.Todo o lugar escuro lhe dava Nictofobia,era como se sentisse o coração bater no sentido contrário da vida.Perdia o sentido de orientação,uma claustrofobia de espaço sem norte.Perdida, recomeçava outra história.
Outras vidas (...)
Célia M Cavaco / Desvios
(in,Conto dos sentidos )
