Abrir um blog de poesia, nada de especial. Mas um blog onde se pode escrever palavras, momentos a partilhar, é um atrevimento, que poderá ser uma ousadia. A minha, onde por instantes viro uma suposta página do meu livro.
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
A mãe dizia demasiadas vezes que éramos pobres.Nunca entendeu o que era ser pobre. À mesa havia sempre comida,tinham uma casa grande,roupa para vestir, sapatos de verniz,vestido de veludo para ocasiões especiais,cadernos,livros,a bata branca igual a todas as outras. A mãe incutia-lhe demasiadas vezes que eram pobres. Na véspera de natal a azáfama para preparar a massa das filhós,o bacalhau de molho para a ceia depois da missa do galo.A ansiedade para colocar o sapatinho na chaminé grande e comprida sem fundo à vista de tão longa que era.A fornalha sempre iluminada pelas brasas para assar batatas doces, a cafeteira para fazer café de saco estava quase sempre a deitar por fora o líquido precioso para colorir o leite fervido momento antes.Tudo era repetitivo até à hora de deitar na cama feita de lençóis brancos com cheiro de sabonária. Por ali cumpriam-se rituais de outras festividades. Pedir presentes?não,éramos pobres,por isso nada de cartas ao menino jesus.Na manhã seguinte, os sapatos do mano e os meus tinham sempre algo inesperado.Uma vez,o mano recebeu um comboio eléctrico que apitava pouca terra,pouca terra, desviando-se dos obstáculos.Já nos sapatos pretos de verniz estava uma caixa preta e estreita,devagar, abriu, e, uma espantosa caneta de tinta permanente estava a descansar num tecido vermelho veludo. Admirou a surpresa,não sabia como escrever com a caneta que tinha um bico igual ao das vacinas que faziam doer deixando uma marca profunda na pele.A caneta mais bonita do mundo foi de imediato escondida,disseram que só poderia usar quando fosse grande e aprendesse as letras.No dia em que a mãe ficava em casa para gozar a folga,era o mais ansiado e muito bem programado. Bem cedo a mãe gostava de se arranjar para fazer as compras na praça,antes do essencial a mãe comprava-me
uma boneca de plástico tão pequena como era a mão que a apertava.A cigana sabia da fidelidade da mãe ao comprar-me a boneca de plástico.Depois, dirigia-se sempre ao mesmo homem que vendia aqueles carapaus grandes para fazer no forno (comida que eu achava insuportável ) de seguida dirigia-se ao talho, desejava o peso certo, nunca menos de um quilo de cada peça escolhida regateando : veja lá,se não for tenra perde uma freguesa.O que mais gostava era a secção das coloridas azeitonas,como gostava das azeitonas grandes temperadas com colorau e azeite e as demais especiarias...logo de seguida, a compra da galinha que não podia ser velha porque levaria demasiado tempo a cozer.Que arroz bom a mãe fazia com aquela galinha.Um dia,a mãe estava a depenar a galinha quando esta fugiu do alguidar com água a escaldar,coisa estranha aquela para depois fazer um delicioso arroz de cabidela.Arroz que a mãe fazia sempre que eu voltava a casa para as férias.O mano a brincar reclamava : Pronto,vem aí a princesa há arroz de cabidela.Para mim o fricassé é só quando o rei faz anos.
A mãe dizia demasiadas vezes que éramos pobres.Nunca entendi o que era ser pobre quando tínhamos um pouco de tanto.
Célia M Cavaco / Desvios
