quinta-feira, 18 de junho de 2015



Um dia,igual a tantos outros,incertezas e angustias vividas diariamente fazem com que o stress se instale.
Pegou nas chaves do carro,rumou em direcção onde se sente tranquila e protegida.Estacionou,ficou dentro do carro a ganhar coragem,estava um vento frio,as ondas eram do tamanho do céu,o horizonte era de uma cor só,mas era ali que conseguia respirar o ar puro; ali,conseguia sobreviver,era ela e o mar.
Fechou os olhos,ouvia música. Agora sim,tudo fazia sentido,o barulho do mar que a acompanha desde sempre,o seu fiel  confidente. Ouviu um toque no vidro,abriu os olhos,era um homem vestido de fato de treino. Assustou-se,ainda assim ouviu o que ele lhe dizia,vens caminhar?...
Abanou um não com a cabeça,ele encolheu os ombros,e afastou-se em direcção ao mar.
Depois,descalçou os sapatos , tirou as meias,e correu até o alcançar. Caminharam lado a lado,e disse-lhe baixinho:-Obrigado!
As pegadas dele eram enormes,as dela condiziam com a delicadeza dos seus pequenos pés,suavizadas pelos passos sincronizados.Sem falarem nada,sentaram-se à beira mar na areia molhada.
Ele disse-lhe:
-Vim para aqui,para acabar com a vida...
Ela,sem o olhar directamente,disse-lhe:
-Que estupidez,já viste o mal que causavas aos que gostam de ti?!...
-Não,não é nesse sentido,é mais para dar um novo começo à minha vida,sentir-me humano,perdi as minhas características, a minha personalidade está ferida,está em ponto morto...
Sou anestesista  há muitos anos,um dia,na sala de cirurgia  falava com uma paciente,tentava dar-lhe segurança,para que se acalmasse .Não sei porquê,fiquei perto dela após a operação. Demorou a acordar,fiquei assustado,e falei-lhe ao ouvido,acorda,preciso de tomar um café,ela,sem abrir os olhos,respondeu-me:
-Toma dois,ou então espera por mim...
Nunca mais a vi,mas,ultimamente lembro-me dela inúmeras vezes,e nem percebo porquê.
Pela primeira vez, olhou-o directamente e disse-lhe:
-Já passaram uns cinco anos,foi em Agosto de 2010,não foi?
-Sim,como sabes?
Eu sou essa paciente,recordo-me desse episódio,só que pensava ser efeitos da anestesia .
Riram-se ambos,deram um abraço, falaram de tudo um pouco,havia mais por dizer...
Ainda hoje,se encontram no mesmo lugar,o abraço deu lugar ao beijo,à ternura que sentem um pelo outro.Todas as tardes,na areia molhada da praia,escrevem a palavra "Amo-te"





Célia M Cavaco /Desvios