segunda-feira, 11 de junho de 2018








Um dia,na brandura da idade, verei tudo como uma peça de teatro onde tantas vezes fui aplaudida, outras tantas, refugiei-me atrás do silencio permanecendo numa inatingível invisibilidade. No palco, todos os dias em cena a mesma forma de representar.
Um dia,na idade do coração, e sem razão, perder-me-ei para ser conquistada nas noites de luar; à beira mar muito próxima do mar tranquilidade vestirei o corpo de nuances de prata.Um dia, quando a brandura da idade não me fizer perder a razão, tentarei lembrar todas as personagens no diário do tempo.
Um dia, na idade madura, tentarei que a memória conte todas as horas sem ponteiros de começo.Uma vez,e já na brandura da idade, terei rugas emolduradas pelos fios brancos tecidos nos dedos enrugados. Sem tempo, a peça num único acto "Um Dia..." fui tanto de mim que sobrevivi para saber como contar o tempo que existi...
Célia M Cavaco,In Desvios






Arte:Carla Cascales

domingo, 10 de junho de 2018



Quando partes,deixas-me no sono uma intranquilidade constante.Os sonhos tornam-se confusos,quero acordar para ir ao encontro sabe-se lá do que procuro.Quanta insanidade o sonho faz das noites o não adormecer nos braços teus.Soubesses tu o que a alma clama por tanta incerteza,por certo, deixar-me-ias adormecer embalada pelo aconchego do teu colo de braços onde me faço ninho. Dentro da concavidade das tuas mãos que me tapam a pele em leve frio,aqueço sem demora à procura de voltar a ti entre o sonho e a realidade.
Quantas noites escrevo demoradamente sorrisos e lágrimas numa controversa e abusiva prosa onde te encontro aí,precisamente no lugar onde plantei o primeiro de muitos sonhos que te prometi escrever todos os dias.Nunca haverá palavras para contar o inicio que ambos sabemos como e onde.
Quando partes,espero sempre o dia seguinte para voltar a ser o sorriso no teu olhar.





Célia M Cavaco,In Desvios





Arte: Carla Cascales Alimbau

terça-feira, 5 de junho de 2018


Na penumbra da noite,o corpo despe-se de debruados gestos que combinam na perfeição com mãos que avançam e recuam por evasões intimas onde os segredos são silêncios badalados nas horas perdidas da noite.
Toda a sensação é arrepio,todos os gestos são revestidos de beijos nas madrugadas sonolentas onde o sol espreita a nudez do poema por vestir.
Das mãos, conta o amor antes de adormecer, que o cansaço é pousado nos lençóis que calam o renascer contínuo de outro dia,outra noite,onde os corpos resvalam pelo dedilhar dos dedos em mãos que se procuram à noite onde a lua num dançar erótico de palavras nuas faz que todas as noites sejam luar.Todo o poema tem os sentidos orientados até à porta que se fecha sobre si.No outro lado deitados sobre a doçura que acontece, o grito rouco sobre-põe-se ao poema desejo...




Célia M Cavaco,In Desvios

segunda-feira, 21 de maio de 2018



Fala comigo! Estás nesse silêncio sem resposta,inquietas-me,fazes com o teu silêncio o mesmo que os teus olhos.Parados no abstracto, avançam para saberem escutar-te nos teus devaneios que se querem longe de ti  no olhar perdido do teu horizonte.Fala comigo,diz-me o que te inquieta,fala-me desse desassossego pária que calas num consentido olhar distante.Tão distante que tenho medo da tua partida,se partires nesse teu silêncio de estrada,escreve-me,conta-me a viagem das tuas palavras que ficaste de dizer à noite na despedida.
Estarei na estação das palavras,escutarei os teus passos de regresso.À noite fecharei os olhos para poder dormir contigo ao meu lado.De mansinho acolher-te-ei nos meus braços,um apeadeiro nostálgico que muito te agradava para conseguires dormir no teu pranto de estrelas.Lembro ser esse o teu olhar quando no silêncio os teus olhos falavam: sem ousares partir do meu peito,ali descansavas todos os teus anseios.Sem nada dizeres,ouvia-te no sossego com o beijo que dizia tanto.
Fala comigo esse amor promessa.Fala-me desse silêncio para que eu possa caminhar também escutando o que silenciosamente calas.Os teus olhos declamam gestos,a tua boca cala o que tão bem sabes falar com o teu olhar perdido na tua alma viajante...


Célia M Cavaco,In Desvios


Arte:Adam Martinakis

quinta-feira, 10 de maio de 2018



A noite atravessa as sombras
as luzes atropelam-se à chegada
da escura noite.A lua entra no rio,
no itinerário das águas procura
a leveza do corpo.
Na escuridão,o inesperado arco-
íris como miragem.As lágrimas,
a chuva deserto tempestade.
O coração, os passos anunciados
na voz que passa.
O silêncio que fala, os olhos que
buscam a manhã, a alvorada vestida
na nudez inventada.
Os cabelos cascata, o corpo a fonte
as mãos a foz… e tu a sede…


Célia M Cavaco,In Desvios


Photo:Pinterest