sábado, 16 de setembro de 2017






Como se aprendesse as primeiras palavras,uma voou em direcção ao olhar.O olhar de nós trocado sem cerimónia de um amo-te.Um contrato definitivo,na alegria e na tristeza,na saúde e na doença, a assinatura final: Amo-te para sempre todos os dias.Ontem e amanhã num acordar constante, o abraço desencaminhado encontra-te ao alcance do beijo dado.Uma e outra vez as bocas ávidas de vida transbordam o desejo de fazer amor nos gestos mais simples.No outro lado, um sopro de vida acontece,um suspiro resignado para alcançar o corpo que foge à idade que se anuncia.Todas as vidas num só desejo,ficar nos braços que enroscam a delicadeza de estar junto na cama vazia.No dia seguinte o amor deixou de fazer-se,dentro de nós o sussurro entre lábios...amo-te até à próxima vida...









Célia M Cavaco,In Desvios









Photo:Vadim Stein 

quinta-feira, 24 de agosto de 2017




Chegou o cair da folha,com o anoitecer o frio ; A casa isolada antecipa a urgência de acender a lareira. No interior a luz incide sobre sombras dispersas . O quadro inacabado no cavalete confere-lhe   a aparência de abandono. O exílio tornou-a intrusa dum lugar onde em tempos habitou risos e felicidade. Ainda se ouvem passos, os móveis,os cheiros, murmuram abandono. A voz sobrepõe-se ao interdito silêncio, o pensamento vagueou . Os olhos buscaram memórias na cama vazia .Na luz terna do olhar as estrelas brilhavam sobre os seus olhos que teimavam repousar sobre o  peito .Os lábios falavam beijos pousados na boca. O sono inquieta-a ,adormece,persegue o vulto do anoitecer. A lua deliberadamente deita-se ao seu lado. Pede-lhe as mãos para ouvir o murmúrio do vento como quando adormeciam na penumbra onde o amor se deitava quieto de cansaço (...)











Célia M Cavaco,In Desvios

domingo, 13 de agosto de 2017


Para cima,para baixo calcorreando a rua que subia e descia a correr.As pedras contadas e recontadas 
até dez. Uma porta sem numero,a porta das almas.No final da rua, a casa do perdão.Os sinos e o eco das  Avé- Marias cantadas . A balada das horas na torre das cegonhas.Tudo pela rua abaixo da rua que subia. Os passos do senhor,a comunhão,o casamento no final da rua que era um largo. O cheiro a petróleo,a cantilena,meio litro,meio litro.O balcão gigante,grande demais como se fosse o pé de feijão.Meio...meio...tudo era esquecido.Os tostões para o recado,trazer o troco,não esquecer...meio litro,meio litro.Todo o esquecimento em troca da audácia.
Dão badalão cabeça de cão,para a frente,para trás,um galho na árvore ,o baloiço secreto.O candeeiro sem petróleo.Não tarda a voz de chamamento...Só mais um pouco,dão badalão cabeça de cão. Meio litro de petróleo,a mãe pediu o troco,o troco num papel que servia para curar a tosse. dois tostões de pau de cebo para dar brilho às botas.Tanta coisa para meio palmo de gente.Uma história,um futuro brilhante no meio do caos. Meio litro...o troco...tanto num corpo franzino que era mulher. A laranjeira dos segredos,o choro, o baloiço, o dão badalão cabeça de cão...








Célia M Cavaco,In Desvios
13-8-2016

quinta-feira, 27 de julho de 2017



Adormeço nos teus braços
refugio onde sossego os meus
anseios.
Neles deito o desassossego
inundado de profana ternura
dando descanso a sombras
nossas...
Nos teus braços adormeço os sentidos
para acordar na madrugada onde a alma
se perde para voltar a ser tua.
Descanso o corpo feito ninho
morro cisne na noite fria.









Célia M Cavaco,in Desvios

sábado, 15 de julho de 2017





Esta dualidade de sentimentos com que me visto,
esta fragilidade que me cobre de incertezas
esta doçura que dispo nas manhãs sem cama...
Este aparente modo de ser,este empréstimo
à vida que assola compassos do tempo que é
medido há muito...
Todas as horas transversais a ultrapassar a meta
antes de ser partida.
Adornos escritos na lua que nos adormece à noite de
todas as luas.
Todas as vezes que escrevo num eco de silencio...
tantas outras que calo a boca faminta
de palavras...
Tanto desejo nas mãos cálidas de ser espera
no cheiro que se oferece ao perfume que nos
veste...
Tanto na intimidade por descobrir
tanto que a vida se empresta para sermos
solta-se o verbo.
Calo-me no silêncio onde me abrigo.










Célia M Cavaco,in Desvios