domingo, 22 de outubro de 2017



Quem visita Lisboa fica sempre com uma lembrança,por mais pequena que seja, guarda-se como referência que procuramos encontrar num regresso ainda que distante.É uma memória fotográfica que fica registada em cada um de nós.Pessoalmente gosto da Lisboa que agora ando a descobrir,vejo-a com olhar mais atento,as ruelas,as gentes alegres e bairristas de riso fácil ou do canto nostálgico do fado.Aprendi a conversar com o Tejo,a cirandar aqui e ali com trejeitos de espanto.A Lisboa que eu amo numa descoberta mútua.Mas o Porto,ah,o Porto.Aquele cheiro que invade a sensibilidade,as ruas antigas pintadas pela nesga de sol que quase nos faz aguarelas de artista.A cada esquina o jazz onde escutar com o olhar é pintar com o coração.A vaidade de ser sangue azul é dar um pontapé e gritar Porto...
Tendo dois amores,não sei de qual gosto mais.






Célia M Cavaco,In Desvios







Photo:Cmc



Nas ruas da cidade grande,pessoas em azáfama social. Trabalho,divertimento,jardins,lugares de culto, tudo lado a lado.A vida agitada em euforia galopante,tudo a fazer caminho para chegar às sete colinas.Cada recanto uma descoberta.Um mundo a partilhar como quem tropeça, por aí, sem combinar, o caminho faz uma constante.Calcorrear a calçada antiga torna-se vício.
Ricos e pobres em contra-mão,a incomoda indiferença pula e avança.Entre risos,passos acelerados atropelam os incautos observadores.Há vida por viver,cada minuto perdido empobrece o tempo.Nas janelas, roupas de todo o mundo,corpos e rostos cosmopolitas espreitam a cidade com sons e falas de outras terras.De mãos dadas percorrem lugares seus,o acaso é tonalizando por cores à beira rio.Rio de caravelas e pelejas ,guerras e conquistas ganhas.Uma história por contar,um romance por escrever. O amor a descobrir-se,sem receio falam a linguagem dos gestos.Todos passam,nada lhes importa.São um todo desse mundo cosmopolita na cidade grande.Misturam-se entre gentes apressadas,de mãos dadas fazem parte integrante da paisagem.Nada lhes importa,andam na descoberta do tempo perdido.O beijo acontece.Beijam-se...
De mãos dadas fazem com que a vida aconteça.Por aí...tentam viver a vida interrompida.Um casal entre outros,não fosse a aura que os acompanha tornar-se-iam despercebidos.Sabem que o tempo é limitado,a pressa de se querem tem condicionantes.Amam-se,tocam-se como quem desespera à partida anunciada.O adeus iminente,demasiadas partidas.Ambos ficam de repente sós.A cidade grande escurece pelas horas tardias.Por aí...amanhã outro dia acontece.Encontram-se, caminham de mãos dadas .A vida numa constante procura.De mãos dadas...






Célia M Cavaco,In Desvios








Photo ??Google

domingo, 8 de outubro de 2017




Quando me perguntas se sou feliz,fico calada a olhar-te olhos nos olhos.No mínimo de tempo possível reages inquieto à esperada resposta.A divagar por todos os gestos que me destes,pelo beijo que ainda sinto; na troca de silêncios e amante de todos os verbos a ternura de olhar-te no reflexo da alma que despe todos os sentidos . A cada gesto de amor cerzido, a intimidade ainda por fazer, no desassossego, a sede da tua boca.Se sou feliz?...Por todos os caminhos de lugares vadios, fui tanto de mim, que me permiti entrar no abismo onde o ter, e não ter, dói o silêncio da partida.Dor que não se vê mas sente-se nos braços estendidos no vazio de lugar nenhum.
Se sou feliz?... Nas horas premeditadas espero-te numa extenuante ansiedade de contar o tempo de chegada.Por cada gesto,as mãos entram vuluptuosamente nas pregas do desejo,essa felicidade que nos preenche num delírio embriagado.
Se sou feliz?... Os teus olhos, um lagar de afectos,dão-se ao orvalho húmido da ternura,é por aí...nos pequenos momentos, que me sinto muito além da felicidade, instantes de comovida conquista.
Se sou feliz?...O poema a quatro mãos declama sentimentos cativos como quem canta a melodia de sermos eternamente nós.
Se sou feliz?...Como não ser feliz,se é de ti ,que o corpo livre de embaraços me faz ficar na enredada paixão; despertando em mim um botão de flor sempre que me dás muito de ti num infindável cansaço para me fazeres feliz todos os dias nessa não pressa com que o tempo nos faz viver.






Célia M Cavaco,In Desvios









Arte:Francine Van Hove




Forçosamente recrio um espaço onde possa estar entre e com as palavras.Muitas vezes encontro palavras gastas,arrumadas,sem lugar de encaixe no poema por escrever.Vou no texto como um encontro inesperado.O que for, será.A imprevisibilidade das palavras surgirá subitamente com o instinto criativo.Confidencias,sentimentos inesperados escreverão mil palavras que eu mesmo desconhecia.A minha existência é toda ela vestida de palavras intimas,por vezes, têm uma dor violenta que quase me faz desistir de conjugar todas as sílabas.Umas violentas,outras de uma suavidade tamanha que me tornam amante da ilusão.Feita de todas as palavras abraço o corpo do poema.Ausento-me na procura de gestos,reencontro nas reticencias a nostalgia.Quebro a saudade no ponto final.Mudo demasiadas vezes ao encontro da linha onde tudo recomeça.Nada é perfeito,até as palavras se deixam explorar numa súbita sedução,o segredar intimista de cada palavra é tão provocatório que levianamente me deixo apaixonar pela prosa. Com sentido de posse deixo às palavras a magia de todos os sonhos inimagináveis. Mantenho a lucidez para que a decadência não atraiçoe as palavras,deixo no erotismo o prazer de escrever...







Célia M Cavaco,In Desvios

segunda-feira, 25 de setembro de 2017





Se pudesse,ou tivesse ousadia,tinha fotografado aquele momento de solidão. Estava sentado ao lado do Jorge de Sena com um abandono assustador. Enfrentamo-nos num duelo de olhares cruzados.Nenhum desistiu,falamos a linguagem dos solitários.Passo por ali para dialogar com a Florbela Espanca,somos duas almas inquietas, ao mesmo tempo tão diferentes.Talvez seja o dialogo dos versos que nos une,talvez...a paixão desenfreada de querer mais, seja um outro elo que me liga aos meus silêncios. Não fosse aquele corpo quebrado sobre os joelhos eu teria passado sem o ver.Como pode um jovem estar naquele lugar velho de prosas e poemas tão antigos? Deu-me vontade de abraçar aquele corpo menino com roupa de adulto.A camisa branca,a gravata sem nó,o casaco caído com desprezo,a barba de dois dias,o cabelo sobre o colarinho...a elegância a contrastar com a nudez da estátua do poeta Jorge de Sena.Lembrei-me do poema." Uma pequenina luz bruxuleante" Não há distância.Aqui,no meio de nós.
Era essa pequena luz em forma de estrela que me fazia ficar ali à espera da primeira palavra que não saiu.Apenas um momento de entrega e oração.Penso que era isso que ouvia naquele lugar onde as árvores também elas abandonadas pelo vento faziam o quadro perfeito da Piétá. Poderia ser mãe daquele corpo aparentemente frágil,poderia ele ser o filho que contra natura estava a sofrer o primeiro embate de um qualquer mal que o fez isolar-se.Talvez o instinto de mãe me fizesse crer que estaria ali por algum motivo.Talvez...talvez, ele mesmo fosse o meu filho...









Célia M Cavaco In Desvios