quarta-feira, 24 de maio de 2017






Quando a distância nos separa basta a geografia de um abraço para alcançarmos o mundo.A frase aconchegava à aventura . À paixão, sobrepunha-se a racionalidade numa forma tão sensual que a consciência fechava os olhos.Não se conheciam,apenas a troca de olhares lhes era familiar, e num incondicional afecto permaneceram silenciosamente desconhecidos.Um sorriso diplomático desenhou-lhes no rosto a cumplicidade . Não eram jovens,eram um acaso fotográfico do tempo. O pilar da moralidade tinha razões para correr num contra relógio, teria de haver tempo disponível para desejar, assim assinassem a convenção da imoralidade que não possuíam . De um momento para outro, a página branca da vida tinha como prefácio o valor e a ética da palavra.






Célia M Cavaco,in Desvios

domingo, 21 de maio de 2017



A perfeição a existir é sem certezas.Porém, numa convicção individual e abstracta,é visível ao olhar de uns ou apenas a um único olhar,o teu, sob esse olhar, existe a perfeição quando o paraíso se sintoniza com o mar,a areia, o sol... e o corpo navega na perfeição quando o mar beija cada pedaço de pele arrepiada pelo prazer de entrar em ti,o gozo pleno de dois que se amam entre ondas e espuma na areia húmida.A cumplicidade e o prazer de ter-te num baptismo perfeito. Os teus braços escrevem braçadas de mar nosso,o mar a que me entrego e regresso tantas vezes num orgasmo perfeito.Tu e eu,a paisagem perfeita,o inexprimível prazer de sermos amantes compatíveis na perfeição de sermos a união perfeita...Será sempre um compasso de espera quando vou ao teu encontro,no final,a nudez com que nos amamos.








Célia M Cavaco,in Desvios

sábado, 20 de maio de 2017




O telefone toca,olho o visor,atendo...do outro lado a pergunta. Vai sair? Respondo que vou ao parque,num curto diálogo faço saber que passo por lá de seguida.Do outro lado uma reacção de entusiasmo fez-me sorrir.
Subi a avenida,entrei no parque para sair logo de seguida.Dirigi-me de imediato ao encontro que fica no final da rua.A distância é mínima.Bato à porta,um segundo depois a porta escancarasse para dar-me passagem. Olhamo-nos com sorrisos de afecto dando à ternura um abraço interminável.A pergunta de sempre,está tudo bem?...
-Ó filha,sabe que de novo não há nada,apenas me apeteceu ouvir musica e ler um pouco,mas para isso preciso de companhia,entre,vamos para o nosso cantinho.O cantinho é um lugar mágico onde os livros dançam sobre o nosso olhar como se também eles precisassem de colo .A musica de fundo num suave som de violino encanta-nos; já o som do piano deixa-nos num silêncio perpetuo. A poesia na voz melodiosa da "mãe" é um bálsamo que aquieta a alma nesta amizade conciliadora de carinho e respeito.Aprendemos ambas que a dor precisa de companhia.Sabemos que a nostalgia gosta de sofrer,por isso rimo-nos com lágrimas nos olhos.Nada nem ninguém é eterno,mas a amizade que nos une, e o privilégio de poder calcorrear a rua para chegar ao colo que preciso é um céu na terra.Obrigada,por me ensinar e cuidar dos meus afectos.







Célia M Cavaco,in Desvios



Duas caixas de tamanhos diferentes foram-lhe entregues em mãos sem remetente. Apenas um bilhete com a indicação do seu nome. Era a destinatária.Cruzou as pernas em flor de lótus,respirou fundo e escolheu uma das caixas,ao abrir,viu apenas um livro,o diário da viagem do Vasco da Gama à índia,as folhas de um branco linho tinham no inicio um lacre dourado. Uma escrita organizada num traço perfeito.Conhecia o livro,tinha um igual na sua biblioteca. Bastou olhar e confirmar que o seu estava na estante.Folheou, entre páginas, fotografias de uma época. Um senhor, aprumado num fato de linho branco, tinha os braços em redor de uma jovem com um vestido branco com flores cor de rosa estampadas no tecido fresco que moldava a juventude do corpo. O vestido estava no seu diário de recordações.Estranhas coincidências,o livro e o vestido...Olhou com atenção cada detalhe da foto como se estivesse no jogo,descubra as diferenças. No pescoço da jovem um pesado colar de pérolas vestia a diferença de idades entre o senhor e a jovem que era apenas uma menina.Outra página,outra foto. A mesma jovem num espaço em branco,apenas o livro repousava nas suas mãos. No final do livro uma dedicatória "Para a única flor do meu jardim".Tomou nas mãos a outra caixa, uma abertura de madre pérola, deslizou sem código. Dentro, todas as pérolas do oceano,as pérolas que cobriam o corpo da jovem mulher da foto anterior. Fechou os olhos,respirou sobre as pérolas,cada uma formava vários colares,brincos ,e anéis que ela mesma usava.Na parte superior da caixa,o tecido vermelho aveludado forrava a tampa,nesta, um envelope preso com um selo lacre. Retirou um papel que flutuou entre os dedos. Leu em voz alta:" Na noite em que as minhas mãos descobriram a rota da seda e das pérolas,o perfume das especiarias embriagou-me os sentidos. Por ti,naveguei pelos mares dos sentidos,por ti, envelheci as palavras de todas as diferenças. Os meus olhos perderam-se num olhar que eram o verde de uma pérola por descobrir .O amor de um,não é o amor de dois.Eis a penitência de não ter aprendido a ler a essência do mar da tranquilidade onde a foz era o pousar de todas as marés"...








Célia M Cavaco,in Desvios




12-6-16

sexta-feira, 19 de maio de 2017



A felicidade por vezes é tão ingénua, que basta um espaço físico em sintonia com um encontro emocional para resumir que tão pouco é muito que nos damos.








Célia M Cavaco,in Desvios







Photo: Jaroslaw Datta