sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017








No frio da noite adormecem palavras despidas
de sentido nas mãos ausentes.
O corpo desnudado abrigo no cântico da noite
sem norte de lua ou de estrelas.
A ternura valsa no linho branco por estender
braços de abraços no peito ninho de aconchego.
Adentra a noite,reaparece a madrugada vestida
de adormeceres cansados.
Avessos luares cheios de tanto com o fim de um
início de noite...













Célia M Cavaco / Desvios













Arte: Antoine Villeurs

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017





Todos nós já tropeçamos mas não chegamos a perder o equilíbrio evitando assim um desaire doloroso .Existe um instinto de sobrevivência,caímos com uma certa elegância ou espalhámos-nos ao comprido. Não há como evitar, não se escolhe o tipo de queda porque tudo é um mero percalço de circunstância.Levado à letra é como abrir a boca antes do tempo e sair asneira,ou na elegância do salto, torcermos o pé dando uma queda livre num salto em comprimento.Airosamente olha-se para ambos os lados para ter a certeza que ninguém assistiu à dita queda ocasional.Gemendo, sem dar parte de frágil, dá-se um retoque no cabelo,alisa-se a saia e...até chegar a um lugar de conforto diz-se um ou outro palavrão sem consequências para a feminilidade imaculada. O palavrão inocente é somente um jeito de aliviar a dor alucinante.Pessoalmente acho que caí somente duas vezes desde que me lembro na minha vida de adulta.Em criança não me era permitido cair,alguém ameaçava com a célebre frase: Se cais apanhas,o melhor mesmo era caminhar que nem uma princesa.Foi aí,penso eu, que comecei dar asas à minha imaginação.Cair jamais,olhar em frente e marchar é caminho .Até aqui estava a falar da queda,aquela que magoa o joelho e rasga as meias...
Mas existe o tropeçar, o cair nos percalços e ratoeiras da vida.É inevitável,ninguém pode ficar impune aos meandros do dito destino, digo eu, que até nem acredito que ele o destino marque dia e hora.Há dias, deitada numa cama sem poder mexer-me olhei para a janela onde o Tejo dava ar de sua plenitude com as luzes da ponte a iluminar aquele espaço minúsculo.Atordoada, sem poder falar, ouvi um alarme tocar...alguém se aproximou falando algo incompreensível, e muitos mais se aproximaram sem que eu entendesse o que quer que fosse. Apenas a janela me chamava a atenção,um pátio húmido e feio com quatro palmeiras enormes, 
chamava a atenção,um pátio húmido e feio com quatro palmeiras enormes, que sem saber como lembrou-me a partida do Vasco da Gama para a Índia.Numa janela térrea duas meninas iguais faziam gestos iguais como que a dizer: Sai da janela que podes cair,ainda assim, fiquei a olhar do alto do sexto andar para o pátio feio e triste.Alguém me deu a beber algo amargo,outros gesticulavam e mexiam nos tubos que me mantinham monitorizada. As meninas impacientes continuavam a gesticular gestos,foi quando me apercebi que era eu mesma dividida em duas.Uma de mim estava deitada longe da janela. A outra de mim olhava da janela para o pátio.Não caí porque alguém me proibiu de avançar para o corredor que dava para o pátio que me pareceu um túnel...sem luz.Acordei depois de ter assustado muitos dos que estavam de serviço naquele dia,naquela hora. Num tempo sem perceber o que era real e o que era imaginação tentei essa fronteira ténue que nos separa ou nos aproxima de um lugar alternativo...














Célia M Cavaco / Desvios

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017





Um jeito perdido,a oração esquecida. Palavras infiéis, medo,sacrilégio. Uma vela em espiral,a
 luz trémula apazigua o medo mais que as palavras fugidas de uma oração esquecida. O silêncio como ultimo recurso.A obsolvição nas rezas matutinas,o corpo a descoberto,as vestes deixadas aos pés da cama que cruza o sono com a madrugada.Deixa-me ouvir-te,deixa que seja eu a filha a ouvir-te pai. Deixa que o meu silêncio seja a alma confessa dos pecados.Somos imperfeitos na mútua perfeição que nos aceita com os imprevistos. Deixa-me ouvir-te ouvindo-te na mais absoluta tranquilidade.Deixa que comunguemos a paz tão ansiada.Hoje ouço-te  chorar...












Célia M Cavaco / Desvios

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017




Encontro do outro eu na mais absoluta desordem.Para lá do pensamento, a divergência,a insanidade consensual do eu absoluto dançando sem ego num amor próprio por definir.
A dualidade imprópria,a imagem, dois reflexos;Um rosto sereno,o segundo como o primeiro, gémeos separados para a vida num colo uterino. O cordão umbilical abraça e aperta o corpo de um que é o outro de mim.O corpo frágil na batalha final,o encontro derradeiro num duelo de forças por medir. A existência,a arte de coexistir dois sentimentos num eu de mim...










Célia M Cavaco / Desvios








Photo:Dario Rial

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017






Uma janela...eu, a janela, e eu outra vez, todos os dias a olhar o mundo que escrevo. Não todos os dias,mas alguns dias, entre mim, e eu,interagem nos gestos diálogos profundos na opacidade dos vidros citadinos.Um mundo irreal, cada um, frente a si mesmo no outro lado da rua.Todos se conhecem sem conseguirem entrar pela cor das cortinas que separa a realidade.À noite, a luz acesa num lusco-fusco trepidante.Cada um por si,todos por um numa noite de verão escancarada às sombras soltas de fértil imaginação.Fazer amor, os gemidos entontecem a lua que espreita por reflexos.O rei sol que acorda o império dos sentidos,espreguiçar,deleite embaraço dentro de nós,eu e tu, num instante beijo solto na madrugada.Entre mim e a janela, o rio que me acorda,o mar que me baptiza ,a areia que me calça; Eu e o mundo,os outros,personagens ocasionais que permito no outro lado da janela indiscreta.











Célia M Cavaco / Desvios









Photo:Dario Rial