domingo, 13 de agosto de 2017


Para cima,para baixo calcorreando a rua que subia e descia a correr.As pedras contadas e recontadas 
até dez. Uma porta sem numero,a porta das almas.No final da rua, a casa do perdão.Os sinos e o eco das  Avé- Marias cantadas . A balada das horas na torre das cegonhas.Tudo pela rua abaixo da rua que subia. Os passos do senhor,a comunhão,o casamento no final da rua que era um largo. O cheiro a petróleo,a cantilena,meio litro,meio litro.O balcão gigante,grande demais como se fosse o pé de feijão.Meio...meio...tudo era esquecido.Os tostões para o recado,trazer o troco,não esquecer...meio litro,meio litro.Todo o esquecimento em troca da audácia.
Dão badalão cabeça de cão,para a frente,para trás,um galho na árvore ,o baloiço secreto.O candeeiro sem petróleo.Não tarda a voz de chamamento...Só mais um pouco,dão badalão cabeça de cão. Meio litro de petróleo,a mãe pediu o troco,o troco num papel que servia para curar a tosse. dois tostões de pau de cebo para dar brilho às botas.Tanta coisa para meio palmo de gente.Uma história,um futuro brilhante no meio do caos. Meio litro...o troco...tanto num corpo franzino que era mulher. A laranjeira dos segredos,o choro, o baloiço, o dão badalão cabeça de cão...








Célia M Cavaco,In Desvios
13-8-2016

quinta-feira, 27 de julho de 2017



Adormeço nos teus braços
refugio onde sossego os meus
anseios.
Neles deito o desassossego
inundado de profana ternura
dando descanso a sombras
nossas...
Nos teus braços adormeço os sentidos
para acordar na madrugada onde a alma
se perde para voltar a ser tua.
Descanso o corpo feito ninho
morro cisne na noite fria.









Célia M Cavaco,in Desvios

sábado, 15 de julho de 2017





Esta dualidade de sentimentos com que me visto,
esta fragilidade que me cobre de incertezas
esta doçura que dispo nas manhãs sem cama...
Este aparente modo de ser,este empréstimo
à vida que assola compassos do tempo que é
medido há muito...
Todas as horas transversais a ultrapassar a meta
antes de ser partida.
Adornos escritos na lua que nos adormece à noite de
todas as luas.
Todas as vezes que escrevo num eco de silencio...
tantas outras que calo a boca faminta
de palavras...
Tanto desejo nas mãos cálidas de ser espera
no cheiro que se oferece ao perfume que nos
veste...
Tanto na intimidade por descobrir
tanto que a vida se empresta para sermos
solta-se o verbo.
Calo-me no silêncio onde me abrigo.










Célia M Cavaco,in Desvios





Um dia,um dia tudo é do avesso.Um choque nos fragiliza,uma dor nos cala.A teimosia é a melhor
arma para combater essa dor que é só nossa.A individualidade é um golpe perigoso nesse céu que de repente deixou de ser azul. O mundo desaba,entregamo-nos nas mãos dele para que nos leve ao colo.O relacionamento entre ambos foi conflituoso,as orações perderam-se na primeira guerra travada pela desilusão.Tantos filhos abandonados e desamparados,golpes infligidos na prematura adolescência recalcaram a fé.Um dia,lembramo-nos que existimos nas pequenas coisas do tempo que fomos, queremos ir à descoberta da ternura que éramos antes do impacto. Tudo é igual,apenas mais tempo para observar e estarmos atentos à grandeza das coisas pequenas que agora tomaram proporções gigantescas."O mundo pula e avança"...
A musica sempre presente nas horas grandes da noite deu à poesia filtros de sonhos.A serenidade, uma revolução aparente,o olhar,um mundo à descoberta.A nostalgia, distâncias percorridas entre oceanos, e mares de tempestade que desaguaram na foz do cansaço sem remos.
A sobrevivência,uma conquista sem margens para dúvidas.Hoje,é tempo de reaprender. Hoje, laços de ternura pousam para adormecer sem margens de partida...









Célia M Cavaco,in Desvios

terça-feira, 11 de julho de 2017





Sou outono,
de folhas ao vento ,sou outono
nas mãos que me acolhem entre
as margens onde descanso o corpo
ninho e me refaço de cansaços.

Sou Outono
de lágrimas fáceis às nuvens passageiras,
deito-me na cama de cheiros de alfazema  onde
te amo a todas as horas numa imaginação de não

querer ser outra que não a poeta que se reinventa
nos sonhos parafraseados.



No horizonte sou as cores que pinto à chegada do
outono que sou.

Essa incessante procura  no voo das aves que
vestem  o céu no entardecer despido de folhas
com que visto a estação anunciada
Sou Outono...









Célia M Cavaco,in Desvios