segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

"Gostar de poesia...será que sempre gostei de poesia? Pergunto-me nos dias em que nada me apetece e ando de um lado para outro sem pertencer a lado nenhum,entre o lado norte,e o lado sul da casa, vejo e ouço sons alternados,canto de aves,folhas de árvores que cantam o vento que passa.Observo as janelas de cada casa, roupas de cores diferentes que vestem corpos que desconheço.Flores vivas e alegres enfeitam varandas,outras,secas e descuidadas mostram o abandono a que são devotadas.Um lugar bonito onde há de tudo um pouco,lugar onde todos me conhecem mais do que eu as conheço a elas,não por descaso,apenas uma solitária maneira de ser. O sol que entra e me aquece neste dia frio, tem diferentes temperaturas,um frio que me arrepia sempre que espreito o lado norte da casa chega-me em forma de brisa da serra de Sintra. Na janela que dá para o que ainda posso ver do Tejo, o frio é amenizado pelo sol.Desta janela vejo a dona Laura que acena com alegria para que eu possa olhar e retribuir em língua gestual um pouco de convívio de que tanto precisa uma vez que mora com uma avançada solidão.A dona Laura abraça-se informando-me que sente frio,eu num gesto de abrir e fechar os vidros, dou a entender que o melhor é resguardar-se dentro de casa.Volto para dentro do meu aconchego,um lugar muito especial,só meu.Acho que posso contar pelos dedos quem teve o privilégio de entrar um pouco neste meu santuário.Um lugar de muitos livros,muitas folhas escritas,outras desenhadas a traços de carvão rostos que invento.É o meu refugio,lugar onde procuro sonhos sempre que fecho os olhos para viajar pelo mundo da música.Quase sempre é Casta Diva na voz da Cecília Bartoli a embalar-me no deixar-me ir por aí.Nem sempre me entendo,reconheço que gero interiormente pequenos conflitos de pura insegurança, o que me leva a procurar silêncios para apaziguar a minha quiça paz interior.Estou rodeada por centenas de folhas brancas,todas elas vestidas de inúmeros rascunhos que deixo ao acaso numa confusão arrumada.Penso muitas vezes em ti,um abstracto rosto que desenho e pinto em inúmeras palavras que leio em voz alta para me ouvir.Há muitas luas que o universo me deixa voar ao encontro de palavras que dançam provocantes indo eu ao encontro do verso que não é poema,antes prosa, onde reinvento uma outra forma de fazer chegar uma história que sem saberes fazes despertar o tal amor pelas palavras inventadas que procuro nesse labirinto onde a poesia se faz humildade e sem pretensão de ser maior do que um jogo de divagações onde as palavras se escrevem entre o que sinto e o que nesse meu caminhar sem ponto de encontro ouso chegar até ti porto de abrigo, deixando um pouco de mim nos teus braços, digo-te vezes sem conta cada vez que me prendes num desses livros que abraço por tempos infinitos de muitas leituras.Se te disser que te amo há muito,dir-me -ás que o sabias desde que abracei o primeiro de muitos poemas... que não sei escrever.
Amo-te,amo-te todas as vezes
que me abraças,amo-te neste
amor de nós sem outro sol
que não o da lua por amante
Amo-te nesta distância que
te abraço todos os dias num
abraçar eterno preso no olhar
dos teus olhos que me vestem
em reflexos dourados de um beijo
que são muitos sempre que te
digo,Amo-te, todos os dias que
acordo a pensar em escrever-te
por mais um dia de toda a minha
vida que sem o saberes repito sem
que possas ouvir...Amo-te!...






Célia M Cavaco,In Desvios









Photo:Maria Clarinda Galante


Ao ler um livro de José Luís Peixoto procurei na biblioteca outros livros deste mesmo escritor que já antes me tinha despertado interesse com o livro Cemitério de Pianos.Não estando disponível o livro que eu queria,peguei na secção de poesia, o livro, A Criança em Ruínas e Uma Casa na Escuridão.Fiquei fascinada com a escrita do José Luís Peixoto.Para dar a possibilidade de outros poderem ler este escritor, devolvi muito antes da data os respectivos livros à biblioteca,não sem antes deixar por escrito num papel que poderia servir de marcador a quem viesse ler um destes livros uma nota de escrita
Mas a história começou quando lia algumas páginas do livro e reparei que tinha passagens sublinhadas a lápis de carvão.No papel que deixei dentro do livro,escrevi: Porque sublinham um livro que não lhes pertence?...
Voltando à biblioteca quase vinte dias depois,procurei trazer os mesmos livros para reler algumas passagens que me tinham agradado.No livro que antes tinha deixado uma nota,havia no mesmo papel uma resposta curiosa:Sublinhei tudo o que li deixando que a minha alma voasse de encontro às personagens,quis por momentos conhecer o autor,quis entender como pode um livro tirar-me o sono e levar-me a divagar na poesia ali escrita com a alma do escritor que passou a ser um pouco minha também.
Fiquei com o dito papel,mas deixei um outro com a seguinte resposta: Como o entendo,pois ao ler José Luís Peixoto também eu voei pela sua escrita,e cada frase sublinhada fez -me cúmplice desse subtil sublinhado como se estivesse a ler em voz alta cada verso, e a poesia, nos chamasse a partilhar diálogos improváveis.Não sublinho,mas peço que leia o paragrafo da página vinte onde deixarei este papel como marcador.
Passou o tempo,tempo de ler outros dois livros do mesmo autor.Voltei à estante da poesia,procurei ansiosa pelo livro que tanto me despertara .
interesse e lá estava no meu papel marcador a resposta que eu tanto procurava...
Minha cara leitora,tal como referiu, li a passagem que me indicou.Curioso como lemos o mesmo livro,e como conseguimos, sem nos conhecermos compreender de maneira diferente este escritor,é como se estivéssemos em simultâneo a reescrever um livro imaginário a quatro mãos onde nos expomos num sublinhar palavras que nunca chegaremos a compreender,uma vez que ler é também namorar o poeta,o escritor que nos enfeitiça com a sua escrita.Este mundo literário é um labirinto de afectos.Desejo que continue a ler, e se possível, quero que entenda que numa das muitas cadeiras aqui expostas, eu vi o prazer com que manuseou o livro, um cuidado que admirei à distância.Com esperança de volte o olhar para o lado contrário da estante onde estavam os livros que tanto procurou, há um livro que gostaria que lesse,é um livro diferente mas muito interessante:Ouvir,Falar,Amar de Laurinda Alves,acredito que vá gostar e entender todo o seu conteúdo.Tudo se passa demasiado depressa,ainda assim dê tempo ao tempo para poder de algum modo dar-me o feedback desse livro que lhe sugiro.Boas leituras cara amiga.Um até breve nesta arte de nos sabermos tal como Miguel Ângelo uma obra por acabar,porque ler é viajar sem sair do lugar.Um lugar mágico,um encontro de palavras onde tentamos conhecermo-nos neste imaginário da literatura







Célia M Cavaco,In Acasos


Querido amigo,será assim que irei chamar-te por toda a vida. Quero-te eterno,inteiro, só pra mim,quero de muito querer-te nesta forma egoísta de não te partilhar.Coube-me a mais sublime amizade que até há pouco desconhecia.
Não será pecado guardar-te só para mim,creio que tudo se tornou tão forte que não há coração que fique magoado,ninguém pode sair magoado meu querido amigo,creio que a amizade se tornou cúmplice nos simples gestos onde pousamos os dias e o tempo, há muito nos sabíamos cheios de ternura.Quase que silenciosamente nos descobrimos como almas gémeas,perguntamo-nos muitas vezes onde estávamos nós neste percurso de versos e manias de vidas trocadas...Saberás por certo meu querido amigo, companheiro de muitas vidas, as histórias de batalhas e, vencidas guerras pelejadas na imortalidade da alma que sempre fomos nós.Os nossos espíritos guerreiros venceram o tempo. O retorno ao universo começará precisamente quando um de nós se atrever a partir.No outro lado, um esperará o outro,será cíclico.Meu querido amigo,atrevo-me como alma gémea da tua, dizer-te que a nossa amizade se tornou uma obra de arte. Amamo-nos com a mesma intensidade com que construímos o nosso mundo,um mundo à parte,um mundo onde o maior valor será a inquestionável forma de amar a eterna amizade.O sonho comanda a vida,escreveu o poeta um dia... escreveremos nós todos os sonhos possíveis de alcançar, será a poesia perfeita desta nossa amizade.






Célia M Cavaco,in Desvios

domingo, 21 de janeiro de 2018







Fragmentos
No outro lado, muito, é solidão que habita a casa vazia.A chave na porta,os
sapatos atirados ao acaso são o único ruído.A roupa arrumada no desarrumado corpo,o corpo numa febre emocional de tanto caminhar sem perder o caminho onde quer morar.As mãos presas nas outras mãos.O rosto emoldurado ao outro rosto.A ternura desmedida casa-se com o beijo. A troca de palavras soletradas num amo-te eternamente,o olhar que despe,o corpo que se chega ao calor do outro.Momento de amor, prazer de se sentir humana.Fazer amor,o mútuo deleite numa eterna sinfonia.O encontro de mãos que se dão à vontade de eternizar o momento, tantas vezes quanto o tempo que se deseja eterno.Segundos, tempo onde se quer mais até doer a partida.Fica comigo... mãos que se desprendem.No outro lado, o lado da razão,a partida,uma miragem de possíveis regressos sem arrependimentos.Fica comigo!...








Célia M Cavaco,in Desvios





Photo: Benoit courti

domingo, 3 de dezembro de 2017



Desajeitada,sem terra minha,aprendi a beber água fresca da fonte na terra dos outros.A ribeira atraiu-me para as suas águas frescas, e nas correntes de água doce e calma me banhei. Nos montes,onde os ecos me acompanhavam no riso alegre e despreocupado comi o pão amassado pelas mãos calejadas de uma desconhecida.Tanta gente estranha abraçou-me como uma papoila fora de tempo.Falas de palavras estranhas divertiam a minha meninice .Sem descansar debaixo da sombra da azinheira,dormi em cama de ferro com lençóis bordados por mãos centenárias.As cores do sol escaldante deram à menina da cidade um rosado trigueiro como se fosse uma ceifeira de campo onde as giestas perduravam como ramo de noiva.Terra de costumes estranhos onde o almoça era de manhã,o jantar à hora de almoço,a ceia na hora do jantar.O panito era o triunfo das gentes,o chouriço o engodo para enganar a fome comido em jeito de refeição.O caldo na panela de ferro cozinhava as horas até à ceia final.A noite sem luz da cidade era alumiada pelo candeeiro de petróleo,as conversas combinavam as tarefas para o dia seguinte que era a poucas horas da alvorada.Eu menina da cidade,tratada como forrasteira,recebia os bons dias numa voz surda que mal ouvia para poder responder.Terra dos outros,terra da minha alma,senhora dona de tudo onde não tenho nada,apenas a saudade e a nostalgia de voltar a ser menina da cidade em tempo de férias.






Célia M Cavaco in Desvios








Arte:Atanas Matsoureff