quinta-feira, 9 de novembro de 2017




Seleccionava no amontoado de papeis quais os que devia rasgar.Cada um finalizava um ciclo,entre os papeis sobressaiu um envelope com a simples indicação: Para ti...
Reteve-o com uma angustia inesperada,sabia,que de algum modo, teria de ganhar animo para poder ler o que estava dentro daquele envelope que por um acaso estava agora nas suas mãos.
«A morte não é nada.Apenas passei para o outro lado do caminho.O que eu era para vocês,continuarei a sê-lo.
Falem comigo como sempre falaram.
Vocês continuam a viver no mundo dos homens,eu estou vivo no mundo do criador,Continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos.O fio não foi cortado.Eu não estou longe,apenas estou do outro lado do caminho. Vocês que ainda aí estão,sigam em frente.A vida continua como sempre foi».

Releu vezes sem conta,como poderia saber uma oração de Santo Agostinho? Logo ele que infernizava constantemente em desafio constante a veracidade de deus e como a vida que acreditava ser só uma, seria na terra que usufruiria em pleno a alegria de viver.Falaram tantas vezes da transição e da maneira que cada um interpretava o afastamento...
Nada é impossível mas era estranho o envelope destinado a si naquele amontoado de papeis.Como soube que iria ser uma partida inesperada? premonição? Tantas perguntas sem resposta.Tanto que ficou por viver...Uma história de amor vivida na plenitude,uma história que ficaria para sempre. Com o passar do tempo apenas uma saudade.Não fosse o envelope não recordaria o dia de hoje,não que estivesse esquecida,mas porque ,sem controlar o curso dos acontecimentos estava a reconstruir sentimentos.
A porta abriu-se devagar,uma gargalhada sonora divertiu-a: Estás a nadar em papéis,ou a levantar o pó? (...) acabou por se rir divertida.A vida continua como sempre.Recomeçar é renascer...








Célia M Cavaco,In Desvios

terça-feira, 24 de outubro de 2017




Coisas minhas
É inexplicável este meu gostar pelo o Outono.Gostando das outras estações,é no Outono que me sinto realizada emocionalmente.Desenraizada das minhas origens,é no Outono que regresso às lembranças de menina,adolescente,e sobretudo de mulher.
Recuo...quando menina,levava na mão uma moeda de um escudo com o propósito de esperar os pescadores que atracavam na doca e comprar berbigão.Sei que levava para casa um saco cheio. A mãe esperava-me em casa com meu irmão, na cozinha grande, o fogareiro aceso.Cada um de nós recebia metade de um limão para temperar o berbigão assim que ele abrisse na chapa grande que fazia uma espécie de pequena mesa redonda.Era a nossa delicia no início do Outono.Sabia, e tinha a percepção, de que no outono o tempo era rápido a chegar à época natalícia.O meu primeiro presente de natal foi uma caneta de tinta permanente.Nunca entendi como o menino jesus soube que uma caneta de aparo viria a fazer parte do meu crescimento como pessoa.Ainda tenho essa caneta que foi colocada no sapatinho pelo menino jesus, a mãe mandava-nos colocar os sapatos na chaminé grande com um fundo de chegar ao céu.Quantas vezes olhava para aquela chaminé esperando ver a passagem dos presentes dos outros meninos.Pensava eu que em cada chaminé o menino fazia uma estação se serviço para descansar e ler as cartas com todos os pedidos de crianças bem comportadas. Já o sapatinho que obrigatoriamente tinha de colocar na chaminé em véspera de natal era de má vontade.Aqueles sapatos de verniz preto eram feios e pontiagudos,e para meu desgosto, a mãe tinha pedido ao sapateiro para pôr nas extremidades uns protectores para os proteger do desgaste.Como poderia eu estragar os sapatos se eles passavam a maior parte do tempo dentro da caixa de compra?... Aquela sapataria Limpinho durante uns anos foi o meu calvário.Os sapatos que eu gostava ficavam sempre na montra a gozar com o meu sofrimento recalcado. 
Por algum motivo não gostei durante muito tempo de sapateado.Talvez aquele adorno que me fazia andar devagar com medo de escorregar fosse a causa.Já adolescente e um pouco senhora do meu nariz ,tornei-me rebelde,sofria as consequências,mas acumulava vitórias que ninguém desconfiava.Subia a rua do Município com uma ligeira euforia,no final da rua,esperava-me a audácia,um pequeno ramo de laranjeira ajudava-me a ser destemida.Foi durante um tempo o meu baloiço secreto.Como eu era feliz naquela árvore que enfeitava o largo da Sé.Nunca poderia ter sido tão corajosa se junto da árvore não houvesse dois degraus que me ajudavam no alcance daquele galho tão importante para a minha secreta valentia.Os anos passaram,e não tantos assim,comecei a ter outros gostos que ainda hoje guardo bem perto do coração.O cheiro das primeiras laranjas,chegava da escola e comia cada laranja com um gosto que arrepiava quem estivesse por perto.Como podes comer essas laranjas tão azedas?
Era precisamente o ácido que me satisfazia.Ainda hoje gosto das primeiras laranjas que aparecem na árvore.Poucos terão o privilégio de apanhar directamente da árvore e comer assim, simplesmente...
Já nas primeiras chuvas de outono, com a leveza do primeiro frio,o rosto colado no vidro da janela saboreando o aroma do café quente acabado de fazer na cafeteira.A Mercearia Aliança era a causadora daquele vício da senhora minha mãe que mo passou como uma nobre herança.A primeira paixão deu-se no outono,como me tornei vaidosa ... Os laços no cabelo foram por assim dizer a minha forma de me declarar adulta.Gostava e não me importava de demonstrar que gostava daquele, que, quando passava por mim, eu quase me engasgava só por dizer olá...estás bem? eu estou,e tu?...esperaras por mim à saída da última aula?
Espero sim...
Um namoro de adolescente num outono dos meus treze anos.
As estações passaram rápido,os anos aceleraram pressa demais.Cresci para outra paixão que foi diferente,de adolescente tornei-me em senhora dona.Uma mulher adolescente com a responsabilidade de saber respeitar essa paixão de um outono adulto de todas as responsabilidades.O primeiro e único Outono onde deixei as folhas a marcarem cada página de um livro por escrever. A primeira escrita tem nome,depois outra,e outra...até acalmar-me nesta minha maturidade ainda rebelde.Hoje,com leves fios brancos que se impõem a emoldurar-me a idade, vivo um outono diferente.Inquieta por natureza,procuro a felicidade nesta jovialidade que tanto eternizo numa busca incessante de procurar-me nesse outono maduro onde sei não estar só.Preciso de pouco,mas inevitavelmente preciso muito desse abraço,desse beijo, onde me possa refugiar sempre em precise aquecer o coração.Por cada ruga que há-de chegar sem aviso prévio, precisarei desse carinho na hora certa.Precisarei sempre de um para que possa regressar ás raízes da estação que me viu nascer.Outono!...









Célia M Cavaco,In Desvios

domingo, 22 de outubro de 2017



Quem visita Lisboa fica sempre com uma lembrança,por mais pequena que seja, guarda-se como referência que procuramos encontrar num regresso ainda que distante.É uma memória fotográfica que fica registada em cada um de nós.Pessoalmente gosto da Lisboa que agora ando a descobrir,vejo-a com olhar mais atento,as ruelas,as gentes alegres e bairristas de riso fácil ou do canto nostálgico do fado.Aprendi a conversar com o Tejo,a cirandar aqui e ali com trejeitos de espanto.A Lisboa que eu amo numa descoberta mútua.Mas o Porto,ah,o Porto.Aquele cheiro que invade a sensibilidade,as ruas antigas pintadas pela nesga de sol que quase nos faz aguarelas de artista.A cada esquina o jazz onde escutar com o olhar é pintar com o coração.A vaidade de ser sangue azul é dar um pontapé e gritar Porto...
Tendo dois amores,não sei de qual gosto mais.






Célia M Cavaco,In Desvios







Photo:Cmc



Nas ruas da cidade grande,pessoas em azáfama social. Trabalho,divertimento,jardins,lugares de culto, tudo lado a lado.A vida agitada em euforia galopante,tudo a fazer caminho para chegar às sete colinas.Cada recanto uma descoberta.Um mundo a partilhar como quem tropeça, por aí, sem combinar, o caminho faz uma constante.Calcorrear a calçada antiga torna-se vício.
Ricos e pobres em contra-mão,a incomoda indiferença pula e avança.Entre risos,passos acelerados atropelam os incautos observadores.Há vida por viver,cada minuto perdido empobrece o tempo.Nas janelas, roupas de todo o mundo,corpos e rostos cosmopolitas espreitam a cidade com sons e falas de outras terras.De mãos dadas percorrem lugares seus,o acaso é tonalizando por cores à beira rio.Rio de caravelas e pelejas ,guerras e conquistas ganhas.Uma história por contar,um romance por escrever. O amor a descobrir-se,sem receio falam a linguagem dos gestos.Todos passam,nada lhes importa.São um todo desse mundo cosmopolita na cidade grande.Misturam-se entre gentes apressadas,de mãos dadas fazem parte integrante da paisagem.Nada lhes importa,andam na descoberta do tempo perdido.O beijo acontece.Beijam-se...
De mãos dadas fazem com que a vida aconteça.Por aí...tentam viver a vida interrompida.Um casal entre outros,não fosse a aura que os acompanha tornar-se-iam despercebidos.Sabem que o tempo é limitado,a pressa de se querem tem condicionantes.Amam-se,tocam-se como quem desespera à partida anunciada.O adeus iminente,demasiadas partidas.Ambos ficam de repente sós.A cidade grande escurece pelas horas tardias.Por aí...amanhã outro dia acontece.Encontram-se, caminham de mãos dadas .A vida numa constante procura.De mãos dadas...






Célia M Cavaco,In Desvios








Photo ??Google

domingo, 8 de outubro de 2017




Quando me perguntas se sou feliz,fico calada a olhar-te olhos nos olhos.No mínimo de tempo possível reages inquieto à esperada resposta.A divagar por todos os gestos que me destes,pelo beijo que ainda sinto; na troca de silêncios e amante de todos os verbos a ternura de olhar-te no reflexo da alma que despe todos os sentidos . A cada gesto de amor cerzido, a intimidade ainda por fazer, no desassossego, a sede da tua boca.Se sou feliz?...Por todos os caminhos de lugares vadios, fui tanto de mim, que me permiti entrar no abismo onde o ter, e não ter, dói o silêncio da partida.Dor que não se vê mas sente-se nos braços estendidos no vazio de lugar nenhum.
Se sou feliz?... Nas horas premeditadas espero-te numa extenuante ansiedade de contar o tempo de chegada.Por cada gesto,as mãos entram vuluptuosamente nas pregas do desejo,essa felicidade que nos preenche num delírio embriagado.
Se sou feliz?... Os teus olhos, um lagar de afectos,dão-se ao orvalho húmido da ternura,é por aí...nos pequenos momentos, que me sinto muito além da felicidade, instantes de comovida conquista.
Se sou feliz?...O poema a quatro mãos declama sentimentos cativos como quem canta a melodia de sermos eternamente nós.
Se sou feliz?...Como não ser feliz,se é de ti ,que o corpo livre de embaraços me faz ficar na enredada paixão; despertando em mim um botão de flor sempre que me dás muito de ti num infindável cansaço para me fazeres feliz todos os dias nessa não pressa com que o tempo nos faz viver.






Célia M Cavaco,In Desvios









Arte:Francine Van Hove