segunda-feira, 24 de abril de 2017






Sei-te longe nessa distância de palavras soltas de verbos e ternura escrita nos abraços desenhados na inquietante forma de amor vadio no caminho do desencontro.
Reivindico o querer-te nesta fragilidade de ser poema insatisfeito onde o desejo do sonho por sonho
deambula a distância que faz tempo.
Não quero perder-me nas estrelas que vestem o céu,nem quero despir a lua que me cobre.
Num luar de pertença cumpramos a promessa de sermos nocturnos predestinados a encurtar os sentidos num interlúdio silêncio que explode.
Sei-te longe nessa distância onde tudo ainda é cedo e o amor ainda dorme as ausências







Célia M Cavaco,in Desvios







Photo: Yuichiro Miyano

segunda-feira, 17 de abril de 2017




Porque o grito é meu, e o silêncio também. Porque do desespero faço luta,da luta ergo o meu cansaço. Cruzo os braços no peito arfante, a solidão entra tapando a luz que incomoda pelas frestas da saudade.
O grito é meu,como meu são os versos suspensos no meu olhar. Divago por distâncias e ausências. Sou o perfume na cama sem corpo.Sou a tua ausência...






Célia M Cavaco / Desvios








Arte:Gustav Klimt

terça-feira, 11 de abril de 2017






A saudade impõe-se nas mais pequenas coisas.O verbo sentir é conjugado na primeira pessoa consentindo à saudade instalar-se num encontro de nostalgia; permitindo que distância, outra aliada da saudade faça um percurso ao encontro das ausências. Viajar até à rua da casa amarela, subir as escadas de encontro à infância, remexer nas gavetas procurando arrumar o tempo de coisa nenhuma. Ouvir o sino da igreja anunciando a hora da missa no domingo de Páscoa. A mãe trabalhando num esforço heróico os quilos de farinha, juntando especiarias e aromas; mel, canela, erva doce ,vinho do porto e os ovos apanhados pela manhã na capoeira improvisada.Os seus braços cansados ajudaram no levedar da massa que depois dava o folar da Páscoa cozido no forno de lenha em tachos na padaria no largo de São Pedro.A janela onde eu espreitava a menina Carminho,uma menina solteirona muito aprumada.A Carminho cheirava a sabão azul e branco,as suas mãos brancas como a cal impregnadas de um cheiro intenso de lexívia lavavam quilos de roupa à mão para entregar no Hotel Faro.A sua mãe, a Dona Maria do Carmo,era uma senhora imponente com o cabelo arranjado e penteado esmeradamente com um carrapito forte e saudável que fazia inveja às Senhoras Donas que iam ao salão da Olímpia, cabeleireira nova lá na rua, tinha vindo do Paris de França.A Dona Maria do Carmo impunha respeito com a sua bengala sempre pronta para as pancadas de Molíere. A vizinha do caminho de ferro,senhora muito senhora do seu nariz era a esposa do Sr. que trabalhava longe e só vinha a casa aos fins de semana. A Alzira,a senhora,não era senhora porque não era casada.Tinha um amigo que a visitava muitas vezes e todas cochichavam a pouca vergonha daquela amizade. Cá pra mim tinham era inveja da Alzira com cabelo forte e negro vestida de vermelho com bolas pretas à sevilhana.Coitada da senhora esposa do amigo da Alzira que não era senhora porque não era casada diziam à boca cheia de pudor descarado.Um dia a Alzira desamigou-se do tal amigo e foi um deus nos acuda a apagar as lágrimas da Alzira que agora tinha a conselho das donas de casa lá da rua detrás do numero vinte dois arranjar um homem viúvo que lhe desse segurança e bem estar.Um dia a Alzira fugiu a salto para França.Nunca mais vi a Alzira cigana como lhe chamavam as más línguas. Na rua da casa amarela no numero vinte e dois,e nas traseiras da casa onde o mundo era diferente aos olhos de uma criança mora a saudade infantil da menina que espreitava o mundo à sua maneira...










Célia M Cavaco, in Desvios



quinta-feira, 6 de abril de 2017





Debruço-me sobre a perversidade da imaginação .Cegam-me as palavras por ler na de saudade sem permissão numa solidão sem abrigo; retiro-me quando confrontada com a claridade das manhãs,a dualidade caracteriza-me nas horas que acompanham o rasgar do tempo bordado por luas mágicas.Sobre o peito desnudado o vermelho ferido.O doce divino deixado nos lábios à pressa de um amor amante nas horas vadias.
Cerzida numa extensa nostalgia,a amargura da rosa desfolhada de pétalas cobre-me de intermináveis diálogos imprevistos.Na minha alma os retalhos transfiguram-se no poema sem trilhos de escrita.
Procuro-me na natureza pura e genuína dum olhar por descobrir.










Célia M Cavaco / Desvios







Arte: Galya Bukova

segunda-feira, 3 de abril de 2017


... As mãos,as tuas mãos onde deito o meu cansaço e o amor acontece.
As mãos que despem gestos no corpo que a ti pertence.
As tuas mãos no corpo que sou eu...








Célia M Cavaco / Desvios












Arte:Cristina Villas