sábado, 15 de julho de 2017





Esta dualidade de sentimentos com que me visto,
esta fragilidade que me cobre de incertezas
esta doçura que dispo nas manhãs sem cama...
Este aparente modo de ser,este empréstimo
à vida que assola compassos do tempo que é
medido há muito...
Todas as horas transversais a ultrapassar a meta
antes de ser partida.
Adornos escritos na lua que nos adormece à noite de
todas as luas.
Todas as vezes que escrevo num eco de silencio...
tantas outras que calo a boca faminta
de palavras...
Tanto desejo nas mãos cálidas de ser espera
no cheiro que se oferece ao perfume que nos
veste...
Tanto na intimidade por descobrir
tanto que a vida se empresta para sermos
solta-se o verbo.
Calo-me no silêncio onde me abrigo.










Célia M Cavaco,in Desvios





Um dia,um dia tudo é do avesso.Um choque nos fragiliza,uma dor nos cala.A teimosia é a melhor
arma para combater essa dor que é só nossa.A individualidade é um golpe perigoso nesse céu que de repente deixou de ser azul. O mundo desaba,entregamo-nos nas mãos dele para que nos leve ao colo.O relacionamento entre ambos foi conflituoso,as orações perderam-se na primeira guerra travada pela desilusão.Tantos filhos abandonados e desamparados,golpes infligidos na prematura adolescência recalcaram a fé.Um dia,lembramo-nos que existimos nas pequenas coisas do tempo que fomos, queremos ir à descoberta da ternura que éramos antes do impacto. Tudo é igual,apenas mais tempo para observar e estarmos atentos à grandeza das coisas pequenas que agora tomaram proporções gigantescas."O mundo pula e avança"...
A musica sempre presente nas horas grandes da noite deu à poesia filtros de sonhos.A serenidade, uma revolução aparente,o olhar,um mundo à descoberta.A nostalgia, distâncias percorridas entre oceanos, e mares de tempestade que desaguaram na foz do cansaço sem remos.
A sobrevivência,uma conquista sem margens para dúvidas.Hoje,é tempo de reaprender. Hoje, laços de ternura pousam para adormecer sem margens de partida...









Célia M Cavaco,in Desvios

terça-feira, 11 de julho de 2017





Sou outono,
de folhas ao vento ,sou outono
nas mãos que me acolhem entre
as margens onde descanso o corpo
ninho e me refaço de cansaços.

Sou Outono
de lágrimas fáceis às nuvens passageiras,
deito-me na cama de cheiros de alfazema  onde
te amo a todas as horas numa imaginação de não

querer ser outra que não a poeta que se reinventa
nos sonhos parafraseados.



No horizonte sou as cores que pinto à chegada do
outono que sou.

Essa incessante procura  no voo das aves que
vestem  o céu no entardecer despido de folhas
com que visto a estação anunciada
Sou Outono...









Célia M Cavaco,in Desvios

terça-feira, 4 de julho de 2017




A sensibilidade ausenta-se,os livros arrumam-se em fila nas estantes. As leituras tiram férias,a poesia,a saudade, deixam de fazer sentido. As folhas acasalam nos ramos das árvores, frondosas,vestem-se de frutos apetecíveis,as flores nasceram,cresceram e nasceram novamente em vasos transplantados cumprindo o ciclo, terra,raízes, folhas, flores e frutos. Os poetas segredam a pré apresentação do Outono onde as folhas irão cair.O vento fraco fará voar todas folhas que antes vestiram as árvores; logo darão lugar a momentos nostálgicos e tudo voltará ao normal com os cheiros das compotas,as tardes no alpendre esperando a chegada das aves... O amor regressará do verão que foi.O romantismo,a intervenção do poeta que se reescreve no papel em rascunhos verbais. A estação emocional instala-se no folhear dos pensamentos olhando o horizonte do tempo que volta a ser...








Célia M Cavaco / Desvios

segunda-feira, 3 de julho de 2017


Naquele espaço branco de paredes nuas, sombras dançavam em silhuetas indefinidas.
No canto como peça decorativa atirada ao acaso a cadeira desconjuntada.,onde mãos desassossegadas vestiam e despiam peças que sobravam no corpo deitado no único canto disponível, o recanto do chão, lugar de paredes brancas e nuas de pintura. Os corpos formavam uma escultura perfeita.
Deitados observavam a pequena réstia de luz no outro lado do quarto, despidos abraçaram a noite onde as vozes segredaram numa respiração exausta os momentos insanos.
A manhã adormeceu a noite...










CéliaMCavaco,in Desvios