terça-feira, 19 de outubro de 2021


 


Meu amor, os campos estão cheios de flores primaveris aqui e ali como passos de balé, saltitam e elevam-se com a brisa do vento leve quando parece o primeiro dia outono. Muitas das flores anteciparam-se com apressado desejo de ver no sol a sua alegria despontada pelos primeiros raios que se atrevem a aquecer a alegria da sua chegada.
Olho para longe perto da janela do quarto, tento vislumbrar o teu possível vulto quanto me querias surpreender com teus passos leves e elegantes para que não desse pela tua presença surpreendo-me com alegria e sorrisos cúmplices de adolescentes que julgávamos e tentávamos continuadamente parecer nada parecia nos envelhecer.
As rosas do jardim abriram com um vermelho cor de sangue, a alfazema e o alecrim circundam o muro como uma cortina perfumada. No alpendre, continua a romanzeira a dar flores meio alaranjadas atirar para o vermelho, tal como serão os bagos a crescerem dentro do fruto que tentávamos guardar até ao dia dos Reis, diziam os mais velhos fazer a despensa cheia todo o ano, mais ou menos como a lenda da Espiga que se guardasse-mos um raminho de espiga composto pela espiga, ramo de oliveira, um malmequer do campo, uma papoula, haveria em todas as casas fartura todo o ano. Nunca me apercebi que nos faltasse nada, eram tempos de concretizar sonhos e acrescentar alegrias, bastávamos os dois para parecer que o era nosso. Tempos idos esses, agora, aqui sentada no velho cadeirão de verga, desbotado por mil sóis e mil luas dançantes olho para estrelas, dou por mim a contar uma a uma, quando dou conta adormeço julgando ainda estar aninhada nos teus braços quando o teu colo fazia ninho. Não sei do tempo, faço por o esquecer, quando chegar a hora partirei por essa estrada fora ao teu encontro, levo comigo, o medalhão onde a nossa juventude espelha sorrisos numa foto sépia. Penso muito nos dias, leio e releio cartas tuas, guardo-as no cofre da memória para que comigo façam a viagem. Espera por mim, levarei o vestido branco estampado com todas as rosas que me ofereceste, não quero esquecer-me de nada. Agora, tentarei adormecer, está uma noite de lua cheia, quem sabe se a lua nos oferecerá a ultima valsa.
Até amanhã!...








Célia M Cavaco ,In DESVIOS