domingo, 3 de dezembro de 2017



Desajeitada,sem terra minha,aprendi a beber água fresca da fonte na terra dos outros.A ribeira atraiu-me para as suas águas frescas, e nas correntes de água doce e calma me banhei. Nos montes,onde os ecos me acompanhavam no riso alegre e despreocupado comi o pão amassado pelas mãos calejadas de uma desconhecida.Tanta gente estranha abraçou-me como uma papoila fora de tempo.Falas de palavras estranhas divertiam a minha meninice .Sem descansar debaixo da sombra da azinheira,dormi em cama de ferro com lençóis bordados por mãos centenárias.As cores do sol escaldante deram à menina da cidade um rosado trigueiro como se fosse uma ceifeira de campo onde as giestas perduravam como ramo de noiva.Terra de costumes estranhos onde o almoça era de manhã,o jantar à hora de almoço,a ceia na hora do jantar.O panito era o triunfo das gentes,o chouriço o engodo para enganar a fome comido em jeito de refeição.O caldo na panela de ferro cozinhava as horas até à ceia final.A noite sem luz da cidade era alumiada pelo candeeiro de petróleo,as conversas combinavam as tarefas para o dia seguinte que era a poucas horas da alvorada.Eu menina da cidade,tratada como forrasteira,recebia os bons dias numa voz surda que mal ouvia para poder responder.Terra dos outros,terra da minha alma,senhora dona de tudo onde não tenho nada,apenas a saudade e a nostalgia de voltar a ser menina da cidade em tempo de férias.






Célia M Cavaco in Desvios








Arte:Atanas Matsoureff