quinta-feira, 11 de maio de 2017





Decidamente a Primavera resolveu fazer uma pausa para nos presentear com uma chuva abençoada e necessária para a agricultura,e para as barragens que estão num limite  preocupante.Não houve um inverno chuvoso e como tal a chuva faz falta.Se gosto de chuva? não,não gosto,por outro lado,gosto de encostar o rosto nos vidros e através da janela ver a dança da chuva.Gosto de beber um chá de pétalas enquanto oiço a chuva a cantar glórias aos céus que se rasgam de bençãos à terra. Entre um e outro livro, paro para ouvir o burburinho das gotas nos vidros; como que a chamarem por mim, levando-me num salto ao encontro visual da dança da chuva. Quando adolescente adorava fugir da chuva para recolher-me no abrigo de casa. onde por vezes, alguidares aparavam goteiras que aqui ou ali faziam ritmo como uma orquestra de coreto.Quase sempre gerava mau estar porque as culpas eram distribuídas pelas telhas partidas ou do pai que se esquecera de limpar as mesmas antes do tempo das chuvas.Sem me importar com os culpados pela chuva que habitava uma outra divisão da casa grande,refugiava-me na janela a comer um chocolate comprado com o dinheiro que a mãe dava para comprar lanche na cantina da escola.Na prateleira superior sobressaia o irresistível chocolate em forma de sandes com um nome atractivo "holliday". A sandes ficava todos os dias arrumada na vitrine na promessa de que seria no dia seguinte...no dia seguinte, os dois e quinhentos (dinheiro dado pela mãe) iam direitinhos para a gula do apetitoso e irresistível chocolate escondido numa embalagem de cor azul celeste.Hoje a chuva fez com que me refugiasse nos meus afectos guardados em caixas arrumadas e sobrepostas por datas de saudade inscritas em cada uma delas.Mexi,remexi cada lembrança com uma nostalgia embrulhada em lágrimas de tempo.Abracei junto do peito os laços de amor em tempos de paixões.A caixa das fotos; uma a uma peguei com cuidado de colo todos os que guardo dentro do coração,uma chuva miudinha de lágrimas molhou a emoção sentida como um pássaro ferido sem saber como e onde pousar...não fosse hoje a chuva,estaria tudo arrumado até à estação dos afectos.Uma pequena caixa arrumada sem lugar de pertença chama-me a atenção,evito pegar-lhe,sei que destapando-a um vazio sem tapa deixa os sonhos soltos,é nela que guardo o que ainda não aconteceu,é nela que os meus sonhos são guardados com um toque mágico...a corda...a bailarina dança sempre que os meus dedos seguram a tampa dos  sonhos que sonho...







Célia M Cavaco,In Desvios