Porque escrevo quando as palavras que quero me atraiçoam,e galopam em alados voos que me ultrapassam? Escrever sem saber,é como ser orfã do cordão umbilical que não conheci . É alimentar-me de uma ansiedade nostálgica que me visita sem aviso prévio. É sonhar acordada uma realidade onde me desencontro com as palavras,uma madrugada,uma aurora extensa,um mundo construído de castelos desmoronados nos sonhos de criança.Não me reconheço no que tento escrever,sou uma paria de ecos e sonhos perturbados, tentação infernal de sonhos provocadores. A minha liberdade é a minha eterna criatividade. Escrevo? Não sei porque tento,não sei que movimento libertador me ocupa nas grades abertas à imaginação. Sou estação sem piadeiro,sou ave de todas as primaveras onde reinvento e renasço numa folha de Outono. Sou simplesmente palavras que me habitam sem permissão,sou tentação de mim mesma quando ouso casar-me com as palavras que me vestem a pele do todo o prazer,sem ele estaria fria de sentir o que ainda tento compreender. Escrevo o que não sei de mim, e ouso entender os rascunhos e deitados ao vento nas folhas que rasgo .Escrevo o que me veste e agasalha nas horas mortas da tarde quando o ocaso pinta o horizonte de sonhos inacabados. Porque escrevo? Não sei,mas tento adaptar-me a voos que me ultrapassam quando a noite adormece.
Célia M Cavaco / Pontas Soltas
Imagem:Wallpapers
