Ruas estreitas da vila,onde toda a gente passa, corre e ninguém se conhece. Uma vila histórica,com palácios,jardins de famílias antigas. Dá vontade de percorrer e espreitar as casas velhas de grandes famílias,agora restauradas. Um bloco e um lápis para desenhar o imaginário.Os salões,as crianças que não podiam ser vistas pelos adultos à hora do jantar de gala.Era contra a boa educação,as crianças jantavam à parte, cuidadas pelas criadas ou preceptoras rígidas e de aspecto austero. Poucas casavam,pois tinham o estigma de nunca terem recebido uma carta de amor.Por isso mesmo o amor para elas era recalcado. Quanto muito podiam ir à igreja e admirar as vestes das damas,enquanto elas usavam o traje preto quase de viúva, enfeitado apenas pelo alfinete de herança o seu bem mais ousado naquela mórbida austeridade que fazia os mais audazes fazerem caretas.Quando apanhados era o Deus me acuda.O castigo era redobrado.Havia algumas,poucas, que tinham o instinto maternal e esses eram uns felizardos na história da família.Continuando a pesquisa na vila mais que centenária,encontrou a Igreja Matriz,entrou,cheirou-lhe a cera,aquela cera de tratar móveis. Deu por si a pensar, quem faria tal trabalho há centenas de anos a trás? Seriam as freiras,ou as noviças?decerto havia uma hierarquia.Contudo e apesar do cheiro das vestes das damas que ali ainda se faziam sentir,sentou-se num banco de madeira também ele com cheiro de outras mãos,outrora com luvas. Possivelmente os leques tinham sido usados naquele ambiente abafado, pelos cochichos e segredos de salão.Olhou para a sua esquerda,e viu uma pia bastimal,chegou perto e meteu lá a mão.Tentou fazer o sinal da cruz,trocou-se toda.Pensou no que aprendera quando andara na catequese,e deu por si a fazer uma oração,depois outra,e veio-lhe à memória todas as rezas que aprendera por obrigação.Talvez por isso a sua relação com a igreja fosse de afastamento.Sentiu uma calma profunda, percorreu todas as imagens,fez perguntas tão baixo quanto a oração que fazia; ao mesmo tempo que andava em ponta dos pés.Nunca percebera o porquê do silêncio numa igreja.Pensou em sair,quando deu por si a ajoelhar-se e rezar:
- Senhor,perdoai-me todo o mal que possa ter feito,Senhor,ajudai-nos nestas horas difíceis por que passamos.
Em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo.Amém!
- Senhor,perdoai-me todo o mal que possa ter feito,Senhor,ajudai-nos nestas horas difíceis por que passamos.
Em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo.Amém!
Célia M Cavaco / Desvios
