Abrir um blog de poesia, nada de especial. Mas um blog onde se pode escrever palavras, momentos a partilhar, é um atrevimento, que poderá ser uma ousadia. A minha, onde por instantes viro uma suposta página do meu livro.
sexta-feira, 19 de junho de 2015
Abriu a porta da casa, há muito que não entrava ali. Os anos foram passando,não tinha sentido necessidade de fazer as pazes com o passado. Tinha fechado o livro na página em branco,o marcador tinha assinalado o dia e a hora. Andou por todas as divisões da casa,até chegar à sala,sentiu o cheiro da lareira,remexeu as cinzas,reavivou o fogo. Aconchegou-se nos seus braços,beberam o vinho escolhido por ambos.Depois, adormeceram quentes, aconchegados no amor correspondido. Faziam o mesmo todas as noites; até que um dia,o imprevisto aconteceu,esperou por ele,fizera a cama no chão,bebera o vinho sozinha ,ele demorou,ela adormeceu...
Acordou sobressaltada com o alarme do telemóvel,atendeu,ficou sem reacção,recebera a noticia da sua morte. Fugiu,gritou o choro,as lágrimas foram desespero.Tudo ficou numa calma ilusória.Passados dias, voltara à casa que deixara fechada para não voltar mais,até hoje...
Reagiu às lembranças,estivera a reviver tudo assim que entrara na sala. Abriu as portadas da janela,havia uma rosa no jardim,saiu para a cheirar . Tinha o perfume dele. Picou-se,chorou ao tirar o espinho que se introduzira na pele. Depois,lembrou-se do pacto que ambos tinham feito quando tinham plantado a roseira. Quem partisse primeiro,daria sinal com a primeira rosa que florisse na Primavera. Falou-lhe,agradeceu-lhe,voltou a sentir o seu perfume. Não colheu a rosa,deixou-a na terra,não queria que ele morresse uma segunda vez.
Assim,todas as Primaveras o seu perfume iria chegar em forma de flor...
Célia M Cavaco / Desvios
Arte: Colin Frazer
